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Das praxes

24.01.14

Em fila indiana, dois a dois, saímos do anfiteatro onde cada um de nós, maioritariamente, tivera o primeiro contacto com a praxe. De olhos postos no chão, deslocámo-nos para um pequeno jardim nas traseiras da faculdade. Em filas, sempre de olhos postos no chão, recebemos as primeiras ordens. De quatro aprendemos os primeiros cânticos, as primeiras regras, a importância da hierarquia que, durante os próximos anos, teríamos, obrigatoriamente, de respeitar. Seguiu-se uma semana de actividades pela cidade sempre acompanhadas de duras regras, grandes provas físicas e, acima de tudo, psicológicas. Foi a chamada "Semana de Recepção ao Caloiro". Mas aquilo era apenas o começo. Semanalmente, as provas repetiam-se. A obediência era cada vez mais cega, as humilhações cresciam de tom, os nomes de praxe cada vez mais provocadores, a ideia de "integração e socialização" com que havíamos sido iludidos tempos antes desvaneciam-se. Os caloiros eram cada vez menos, quase sempre envoltos numa enorme mancha negra de doutores e veteranos que se divertiam a gritar, a rir e a gozar. A troca de palavras entre caloiros era expressamente proibida; a troca de palavras entre estes e os doutores era alvo de castigo. Naquelas horas praxísticas éramos seres sem direitos, subordinados a um código, a uma hierarquia a quem devíamos estrita obediência, a rituais de "iniciação na vida". Seríamos "recompensados" com insígnias. Éramos uma "massa" que deveria estar unida qualquer que fosse a circunstância, que deveria mostrar orgulho por estudar naquela faculdade, por poder representar aquela instituição nas mais diversas actividades académicas e praxísticas. Éramos também os bobos da corte; os bonecos de trapos nas mãos de doutores, veteranos e dux. O ego era espezinhado e o amor próprio deixado à porta da faculdade. Era uma "experiência de vida", diziam-nos eles, "uma pequena amostra daquilo que vos espera no futuro." Acima de tudo era o gozo e a sede de poder de uma subida galopante de quem, de capa traçada e colher de pau, nos praxava. A frustração impressa nos rostos de quem consegue sentir-se bem ao insultar quem está de quatro, com os olhos a fitarem o chão. Ao menos que tivessem coragem de nos humilhar olhando-nos nos olhos!

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